DEMOLIÇÃO POR ABANDONO – O CASO NO CAMPO DE SANTANA

DEMOLIÇÃO POR ABANDONO
Esse artigo faz um aprofundamento de um tema recorrente que tratamos no Brasil – a Demolição por Abandono. Esse material será ilustrado por um caso típico e emblemático desse abandono que o o prédio que se situa na esquina do Campo de Santana e que chamam de PALACETE IMPERIAL . As fotos mostram o predio anos atras, na data de hoje e tivemos a preocupação de mostrar como ficaria o predio caso ele passasse por uma restauraçao criteriosa e fosse devolvido à cidade . Provavelmente isso nao irá contecer porque entre inumeraveis danos, o predio foi invadido por pessoas em situação de rua que estao acampadas dentro do predio, apesar de interditado pela Defesa Civil e apesar de oferecer risco a transeuntes e tudo no entorno dele.

Infelizmente, consolidou-se no Brasil a ideia de que um monumento gravemente danificado, ao perder parte de sua estrutura, transforma-se definitivamente em uma ruína e, como tal, deve permanecer.
O mais curioso é que inúmeros edifícios históricos permanecem durante décadas em processo de degradação sem que recebam intervenções efetivas. Quando finalmente colapsam ou são destruídos por incêndios, passam imediatamente a ser tratados como “ruínas históricas”, como se o próprio processo de demolição por abandono lhes conferisse uma condição definitiva que impediria qualquer possibilidade de reconstrução.
O mais paradoxal é que boa parte das diretrizes da preservação do patrimônio arquitetônico brasileiro nasceu justamente na velha Europa. Entretanto, essa mesma Europa continua entendendo que monumentos destruídos por guerras, incêndios ou outras tragédias devem, sempre que possível, ser reconstruídos de forma fiel, permitindo que as futuras gerações conheçam essas obras como elas realmente eram.
No Brasil, talvez influenciados pelas tradições modernistas da arquitetura, muitos profissionais aprendem nas universidades que “ruínas são ruínas” e devem permanecer como tal.
Afirma-se frequentemente que “cada caso é um caso”. Entretanto, quando chega o momento da reconstrução, quase sempre prevalecem projetos de requalificação, que alteram profundamente as características originais do edifício, ou aquilo que costumo chamar de reconstrução autoral, quando arquitetos ou escritórios de arquitetura utilizam o monumento histórico como suporte para criar uma nova obra, baseada em sua própria interpretação do passado.
Proponho aqui o conceito de Reconstrução Autoral, entendido como a intervenção em que a linguagem arquitetônica contemporânea substitui deliberadamente a configuração histórica do monumento, fazendo com que o projeto passe a refletir predominantemente a autoria do restaurador, e não a do construtor histórico.
Para justificar essa opção, recorre-se quase sempre ao conhecido argumento do chamado “falso histórico”, utilizado para negar a possibilidade de reconstruir o monumento conforme sua configuração original.
Enquanto isso, no exterior, vemos exemplos como a Catedral de Notre-Dame de Paris, o Mosteiro de Monte Cassino e tantos outros monumentos históricos sendo reconstruídos praticamente como eram antes do incêndio ou dos bombardeios que os destruíram.
Respeito profundamente aqueles que pensam de maneira diferente, mas considero que soluções como as que foram mostradas em Julho na Igereja de Sao José da Boa Morte não seja a mais adequada para um país como o Brasil, marcado pelo clima tropical, altos índices de pluviosidade, elevada umidade e pelo amplo emprego de materiais construtivos relativamente frágeis, como tijolos e argamassas de cal.
Em regiões onde predominam construções em pedra e onde existem grandes lacunas documentais sobre técnicas construtivas antigas, a conservação de ruínas pode, em determinadas circunstâncias, fazer sentido. Contudo, defender que edificações brasileiras dos séculos XVIII e XIX não possam ser reconstruídas conforme suas características originais me parece um equívoco.
O que se apresenta ao público transmite a sensação de um monumento permanentemente aprisionado na estética da tragédia.
A igreja ruiu e, ao que tudo indica, continuará sendo uma ruína visitável até que novos ciclos de chuva, umidade e degradação provoquem novos colapsos.
Não se trata de saber se isso acontecerá.
A questão é apenas quando acontecerá.
O discurso segundo o qual o monumento está protegido, enquanto se exibem paredes queimadas, alvenarias expostas, estruturas deformadas e marcas do abandono como principal elemento da experiência visual, parece profundamente contraditório com a própria ideia de preservar um patrimônio para as futuras gerações.
Essa reflexão não é superficial. Estou justamente concluindo a segunda edição do livro que publiquei originalmente em 1997 sobre o antigo Palácio da Quinta da Boa Vista, no qual abordo essa questão de maneira muito mais aprofundada.
Talvez essa seja uma das contribuições que um historiador e um arqueólogo possam oferecer: ajudar a sociedade a compreender que um edifício histórico não merece ser eternamente musealizado como a imagem de sua destruição.
A ruína não conta integralmente sua história.
Ela registra apenas o capítulo final de um processo de abandono ou de um sinistro.
Acredito que o brasileiro do futuro não deseja caminhar eternamente por monumentos congelados na estética da perda, do trauma e da degradação.
Se um edifício foi tombado enquanto monumento, sua preservação deveria buscar manter suas formas, seus espaços e suas características essenciais.
Naturalmente, as ruínas possuem inegável valor documental e memorialístico. Ninguém nega isso.
Mas uma construção que até poucos anos atrás permanecia íntegra não deveria transformar a tragédia, o abandono e a incúria em sua linguagem permanente.
Espero que as novas gerações de arquitetos brasileiros tenham cada vez mais contato com experiências internacionais desenvolvidas na Alemanha, Hungria, Bélgica e tantos outros países que possuem uma sólida tradição em restauração arquitetônica.
Talvez assim possamos formar uma massa crítica de profissionais capazes de compreender novamente o monumento histórico como a materialização de técnicas construtivas, conhecimentos, saberes e realizações humanas que deram origem a edifícios destinados a celebrar a fé, o poder, a cultura e a própria história das sociedades que os edificaram.
Para mim, a reconstrução somente estará verdadeiramente completa quando o observador puder voltar a enxergar o monumento em sua integridade arquitetônica.
Por mais belas que sejam passarelas metálicas, iluminação cênica ou soluções contemporâneas, isso não constitui, em minha compreensão, um verdadeiro restauro arquitetônico.
Trata-se, muitas vezes, de uma solução que procura amenizar a consciência daqueles que tiveram a responsabilidade de preservar esses monumentos enquanto ainda estavam de pé.
Depois do colapso, devolve-se aos verdadeiros proprietários desse patrimônio — a sociedade — apenas uma imagem pálida, incompleta e permanentemente marcada pela destruição.
As fotografias que ilustram esta postagem representam apenas alguns dos inúmeros monumentos brasileiros que ainda poderiam ser reconstruídos.
E o mais significativo é que muitos de nós ainda chegamos a conhecê-los inteiros.
Preservar não significa eternizar a destruição. Preservar significa transmitir às futuras gerações aquilo que as gerações anteriores construíram. Se o patrimônio foi protegido por representar uma obra arquitetônica, então é essa obra que deve ser legada ao futuro. A ruína possui valor documental, sem dúvida. Mas ela jamais poderá substituir plenamente o monumento cuja existência lhe deu origem. Entre conservar os vestígios da tragédia e devolver à sociedade a integridade de sua herança cultural, continuo acreditando que a segunda opção representa, de forma muito mais fiel, o verdadeiro sentido da preservação do patrimônio.
O objeto que justifica a proteção de um edifício histórico é o próprio monumento, e não a sua ruína.
Que se pense nisso com maior atenção.
Pequeno vocabulário conceitual:
Demolição por abandono – processo pelo qual a omissão deliberada ou prolongada da conservação conduz ao colapso progressivo de um bem cultural.
Ruinificação – transformação de um edifício em ruína em decorrência da degradação ou de um sinistro. (Este termo já existe em alguns estudos internacionais, embora pouco utilizado no Brasil.)
Reconstrução autoral – intervenção em que a criação contemporânea se sobrepõe à configuração histórica do monumento.
Restauração integral – modalidade de restauração baseada em documentação histórica suficiente para restituir, tanto quanto possível, a aparência, a espacialidade e a leitura arquitetônica originais do monumento.
Estética da Tragédia – Conceito de Restauro típico de projetos de Restauro no Brasil que transformam os resultados dos incêndios, do abandono e da perda na principal experiência visual do visitante. Esse é o caso do Museu Nacional . Também pode ser chamado de A “Estética da Ruína Permanente”
Comparar ele coma ultima foto desse album que mostra o predio histórico do Colégio Pedro II na Marechal Floriano !

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